domingo, 11 de março de 2012

Todos imitam todos?

    No mundo dos negócios, a cópia – sob o pseudônimo de Benchmark, para ganhar nobreza – é responsável pela disseminação das melhores práticas por toda a indústria. Mais: a cópia incentiva a inovação. Não fosse a pressão dos fabricantes dispostos a prover os mesmos produtos ou serviços por um preço menor, os inovadores se contentariam com a primeira versão de seus inventos. É a constante ameaça de ser imitados que os faz melhorar, melhorar e melhorar suas criações.
    Dos quase 50 anos de vida da marca de chinelos HAVAIANAS, há 30 o grupo ALPARGATAS luta contra cópias do modelo patenteado de palmilha com forquilha de borracha. Para combatê-la, a empresa contratou o comediante Chico Anísio, nos anos 70. Na TV e no rádio, Chico pedia que as pessoas comprassem “as legítimas”. A batalha ficou mais dura a partir de 1994, quando a ALPARGATAS passou a investir na imagem de acessório de moda. Num passe de marketing, os chinelos começaram a aparecer nos pés de ricos e famosos. Fábricas grandes e pequenas reproduziram o novo estilo fashion. “As imitações são um problema que gera distração na equipe e um custo nada trivial”, ressaltou a Diretora da Empresa Havaianas.A maioria dos casos, a empresa apenas faz uma notificação ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual.
    A linha IPANEMA, feita de plástico pela GRANDENE, entrou no mesmo nicho que a HAVAIANAS quase dez anos depois que gerou um benefício indireto para o setor e para a empresa.  Isto só confirma a máxima de que quando um bom concorrente surge, os processos das empresas do mesmo segmento se aceleram.
    Há, porém, uma diferença entre a imitação e a pirataria. Muitos imitadores copiam apenas para abreviar o caminho da criação. Para dar um salto de grande impacto, algumas habilidades são cruciais: a “combinação” (mesclar os recursos próprios com tecnologias e componentes do inovador a ser imitado), a “absorção” (assimilar e aplicar novo conhecimento) e o “networking” (formação de alianças estratégicas necessárias à operação). Como por exemplo, a Embraer, terceira maior fabricante mundial de jatos civis, alcançou essa posição depois de um longo período de imitação criativa feita mediante parcerias globais.
    Deixo aqui uma questão: existe inovação sem imitação?
Maria Lúcia Batista Conrado Martins

Eu, você e o professor

    Esta semana encontrei com meus pares numa oficina ministrada por mim, aos professores da Escola Municipal Laurival Cunha, em Barcarena. Confesso que foi um momento ímpar em minha caminhada profissional. Lidar com as reflexões, as angústias, as perdas e luto da profissão Professor não é fácil, principalmente nos dias de hoje. Este texto está sendo escrito, e quero que não seja uma mensagem, um desabafo, para ser lido, analisado e principalmente questionado pelos meus pares. Aqui há, na realidade, um conjunto de considerações colhidas desta oficina, que pode ser registrado como um artigo acadêmico, para estudo em escolas, universidades e para os interessados nesta área.
    Há um mito acalentado por muitos professores é o da suavidade do processo educativo. Isso é ilusão pedagógica vendida principalmente aos jovens educadores, aos que estão se iniciando nesse trabalho.
    Defendo, com base em minha experiência e na dos professores da Escola Municipal Laurival Cunha, que o processo educativo conhece, às vezes, momentos de grande aspereza, sem deixar com isso e ser educativo. A educação não é sempre um caminho florido. Ao contrário, principalmente em se tratando de educandos em situações de risco pessoal e social, o processo, muitas vezes, é árduo, pesado, doloroso e difícil.
    A tensão, o risco e a angústia nem sempre podem ser evitados pelo professor, eles são parte da essência mesma desse tipo de trabalho. Aqueles que não quiserem enfrentar isso devem ter a honestidade de afastar-se dessa área de atuação. É bom deixar claro que conviver, às vezes, com esses estados emocionais não significa, de modo algum, sucumbir a eles, transformando o trabalho num muro de lamentações.
    Tomar decisões difíceis, sustentar medidas desgastantes, impor limites, expor-se às críticas dos bem-pensantes, cobrar compromissos, correr riscos, assumir apostas, enfrentar os dissabores da crítica e da autocrítica são alguns componentes do que chamamos de Asperezas do processo educativo. Sem essa dureza e essas dificuldades, teremos apenas um simulacro de educação, um “Faz-de-conta pedagógico”, um conto da carochinha, uma ilusão a mais na vida de nossos educandos e dos professores.
    Esta aspereza precisa à vezes às duras penas serem digeridas por nós, professores, causando muitas vezes grandes estragos na nossa vida emocional e profissional. É preciso pensar nos professores com a devida acolhida e escuta, com a devida fala e coesão, com o devido entendimento e aceitação, enfim, viver a parceria sociedade/escola/família e você que neste momento lê e reflete comigo a história da educação.
    Por tudo isso é que a formação dos professores e, ainda mais amplamente, de todos os profissionais da educação tem que ser um processo permanente. Entretanto, pela conjuntura particular que estamos vivenciando, premidos pela agudeza da não-eficácia generalizada da escola, ela se impõe de maneira que vivemos um momento singular de síntese, reconceituadora e revolucionária no coração  da escolaridade, que acena para um novo tempo.
Maria Lúcia Batista Conrado Martins

sábado, 3 de março de 2012

Liderança: Potencializando qualidades


           Uma oficina e muita reflexão são assim que defino a oficina que ministrei durante o mês de fevereiro, pela Escola de Governo de Ananindeua. Foram valiosas as experiências que ao permitir uma releitura, possibilitou uma formação real e funcional do sentido da LIDERANÇA.
           Desta forma, quero neste momento deixar firmada uma mensagem a este grupo e a todos aqueles que de alguma forma interessam pelo tema LIDERANÇA ou que são líderes em transformação.
           O mundo para qual estamos caminhando é uma “aldeia global” de dados e informações. A informática, o processamento de dados, a computação nos enganam no momento em que julgamos que temos tudo nas mãos. Não, temos nas mãos apenas aquilo que os dirigentes dos sistemas gerenciais de informações desejam e permitem que tenhamos.
           Compete a nós darmos um passo além – ou seja, esta é a mais alta forma de raciocínio, a que lida com variáveis em número infinito e consiste, em última instância, em nunca fazer o que não dá certo.
           É fácil o caminho que proponho? Com certeza, se você for honesto consigo mesmo e parar cinco minutos para pensar no assunto, sua resposta será não. Sua resposta será negativa por tantos motivos que, se fôssemos falar de todos eles, provavelmente não teríamos nem espaço nem tempo.
           Na verdade, a estrutura de promoções nas organizações está tão condicionada ao desempenho de cada um dentro de sua própria especialidade ou departamento, que os velhos conceitos não podem ser quebrados e substituídos tão rapidamente quanto gostaríamos.
           Isto torna as coisas mais difíceis para quem quer subir ou mesmo exercer em eventos, sua liderança. Todos nós, em maior ou menor intensidade, temos medo de mudanças e, conseqüentemente, de novidades. O que estou dizendo aqui é que deve existir um “medo” normal e natural. Mais do que medo, uma certa ansiedade pelo desconhecido. Mas essa mesma ansiedade deve ser nosso  maior agente motivador na busca da descoberta e no poder de criar novas soluções para velhos problemas.
           Não se deixe seduzir pelo comodismo da rotina e do conhecido e “seguro”. Pode ser confortável, mas é muito pouco promissor. O século XXI não aceitará acomodados. Aqueles que o fizerem, pagarão o preço do esquecimento e da nulidade.
           O que você quer?
           Esta resposta só quem pode dar é você mesmo ...

           Mas, não se esqueça: para melhor enfrentar esse futuro tão versátil e dinâmico, procure a ADAPTABILIDADE. Você só a conseguirá conhecendo-se melhor – e foi isso, exatamente, que estivemos fazendo, você e eu, ao longo da nossa caminhada.
Maria Lúcia Batista Conrado Martins

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Políticos e Políticas: Uma reflexão

    Acompanhei toda a trajetória da aprovação da lei da FICHA LIMPA, que por alguns momentos pensei que não seria validada. O Brasil parou para entender as reações, proposições e atitudes de nossos representantes e senhores da lei. Enfim foram sete votos a favor e quatro contra. Confesso que parei para pensar sobre o motivo pelo qual ainda alguns políticos insistem em defender ações inadequadas ao seu poder, mesmo sob a base do princípio da não culpabilidade. Mas precisamos pensar e refletir sobre o contexto político e ético do nosso mundo. E é para isto que me propus a escrever.
    Numa democracia todos nós somos políticos, diretamente ou através da representação dos outros. O mais provável é que os políticos sejam muito parecidos conosco, com quem vota neles, talvez até demais; se fossem muito diferentes de nós, muito piores ou exageradamente melhores que o resto, certamente não os escolheríamos para nos representar no governo. Só os governantes que não chegam ao poder por meio de eleições gerais (como os ditadores, os líderes religiosos ou os reis) baseiam seu prestígio em serem considerados diferentes dos homens comuns. Como são diferentes dos outros (por sua força, por sua inspiração divina, pela família a que pertencem, ou seja, lá o que for) considerando-se com o direito de mandar sem se submeterem às urnas nem ouvirem a opinião de cada um de seus concidadãos. Afirmarão muito seriamente que o “verdadeiro” povo está com eles, que a “rua” os apóia com tanto entusiasmo que nem é necessário contar seus partidários para saber se são muitos ou um pouco menos.
    Por outro lado, os que desejam obter seus cargos por via eleitoral tentam apresentar-se ao público como homens comuns, muito “humanos”, com os mesmo gostos, problemas e até pequenos vícios da maioria de cujo referendo eles precisam para governar. É claro que oferecem idéias para melhorar a gestão da sociedade e consideram-se capazes de colocá-las em prática com competência, mas são idéias que qualquer um deve poder compreender e discutir; do mesmo modo, também são obrigados a aceitar a possibilidade de serem substituídos em seus cargos se não se mostrarem tão competentes quanto afirmaram ou tão honrados quanto pareciam.
    Entre esses políticos deve haver alguns muito decentes e outros descarados e aproveitadores como acontecem entre professores, bombeiros, jogadores de futebol ou pessoas de qualquer ofício.
    Quem deseja vida boa par si mesmo, de acordo com o projeto ético, também deve desejar que a comunidade política dos homens se baseie na liberdade, na justiça e na assistência. A democracia moderna tentou, ao longo dos últimos séculos, estabelecerem (primeiro na teoria e pouco a pouco na prática) essas exigências mínimas que a sociedade política deve cumprir: são os chamados DIREITOS HUMANOS, cuja lista ainda hoje, para nossa vergonha coletiva, é um catálogo de bons propósitos, mais do que de conquistas efetivas. Insistir em reivindicá-lo integralmente, em todos os lugares e para todos – e não apenas alguns - contínua sendo a única empreitada política que a ética não pode ignorar.
    Ao passo que, quanto ao rótulo que você vai ostentar na camisa, se é de “direita”, de “esquerda”, de “centro”, ou seja, lá o que for... Não importa.  São meras nomenclaturas que não podem ficar acima da felicidade e da honradez. Não é hora de se perguntar de que lado está, mas se a ética está norteando suas decisões. Estes quatro votos contra a ficha limpa depõem contra nossa sensibilidade e coerência.
    Termino com um pequeno trecho de Montesquieu que considero espetacular:

    “Se eu soubesse algo que me fosse útil e que fosse prejudicial à minha família, expulsá-lo-ia de meu espírito. Se eu soubesse algo útil à minha família que não o fosse à minha pátria, tentaria esquecê-lo. Se eu soubesse algo útil à minha pátria que fosse prejudicial à Europa, ou que fosse útil  à Europa,  e prejudicial  ao gênero humano, considerá-lo-ia um crime, pois sou necessariamente homem, ao passo que sou francês por mera casualidade.”

Maria Lúcia Batista Conrado Martins
 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Uma discussão sobre planejamento

           Hoje estou professora universitária de uma turma do 6º período de Administração e com isto decidi criar um diário em que como uma pesquisadora do tema planejamento, tem a ousadia de fazer. O meu objetivo é simplesmente registrar minhas ansiedades e inquietações sobre o tema. Nele contarei fatos e situações que para mim no decorrer são lições de aprendizado que não podem ficar sob o meu poder.
Quando minha filha caçula estava com seis anos foi travada uma batalha para que ela fosse comigo à igreja. Depois de muito questionamento, que segundo ela não queria se tornar uma religiosa, e com a ajuda de uma vizinha, convencemos a ir, na seguinte condição: ela deveria trazer o jornalzinho para a vizinha, pois a mesma estava impossibilitada de ir. Quando chegamos à igreja, a minha filha pegou o jornalzinho e falou: Pronto agora podemos voltar, pois já tenho o jornalzinho da tia. Bom o que fazer agora? Pois o que eu queria era que ela ficasse e do seu jeito participasse da cerimônia. Quando enfim a minha filha entregou o jornalzinho disse: peça a minha mãe para trazer para você da próxima vez. Uau! Que lição! Enfim não precisava dela para aquela missão. O objetivo não a envolvia, qualquer um poderia fazê-lo, e acima de tudo, a confundi: Planos e objetivos andam juntos?
Sim. E daí? Aqui podemos pensar: Eu consegui levá-la ao que pretendia? Não. Qual era o objetivo, então? Era levá-la ou garantir que ela participasse? Onde localizam os erros neste contexto: na estratégia, no plano, no envolvimento dos interessados. Com certeza precisamos entender quando e as razões do por que planejamos, pois senão pensaremos mais no acontecer do que nas conseqüências do que planejamos.
           Cada pessoa de pé ao lado do elefante pode fazer sua própria avaliação, limitada e analítica, da situação, mas não obtemos um elefante ao somar “escamoso” (pele), “longo e macio (tromba)”, “maciço e cilíndrico (pernas)”, em qualquer proporção imaginável. Sem o desenvolvimento de uma perspectiva global, permanecemos perdidos em nossas investigações individuais. Essa perspectiva pertence a outro modo de conhecimento e não pode ser alcançada da mesma maneira pela qual as partes individuais são exploradas. Ela não resulta da soma linear de observações independentes.
           O planejamento se projeta em tantas direções que o planejador não consegue mais discernir a sua forma. Ele pode ser economista, cientista político, sociólogo, arquiteto ou cientista. Mesmo assim, a essência de sua vocação – planejamento – lhe escapa. Ele a encontra em toda a parte e em nenhum lugar específico.  O “planejamento” pode ser tão ilusório porque seus proponentes estão mais preocupados em promover ideais vagos do que em conseguir posições viáveis, mais preocupados com o que o planejamento poderia ser do que com o que ele se tornou de fato. A necessidade, portanto, não é criar um lugar para o planejamento, mas apenas reconhecer o lugar que ele já ocupa.

Maria Lúcia Batista Conrado Martins